Engasgo em crianças: o que fazer em cada faixa etária e como aplicar a manobra de Heimlich
Todo pai e toda mãe já viveu aquele segundo de pavor: seu filho tosse de um jeito diferente, fica vermelho, e você percebe que alguma coisa está errada. O engasgo é uma das emergências mais comuns na infância e também uma das situações em que a ação rápida dos responsáveis pode fazer toda a diferença.
A boa notícia é que existem técnicas seguras e eficazes para desobstruir as vias aéreas de crianças engasgadas, adaptadas para cada faixa etária. Conhecer essas técnicas de antemão é uma das formas mais importantes de se preparar para o inesperado.
Neste artigo, vou explicar por que as crianças se engasgam com tanta frequência, como reconhecer um engasgo real, e o passo a passo das manobras recomendadas para bebês, crianças e adolescentes. Nas imagens ao longo do texto, você vai encontrar ilustrações que mostram como posicionar as mãos corretamente em cada situação.

Por que crianças se engasgam tanto?
Não é exagero dos pais que crianças realmente se engasgam com muito mais frequência do que adultos. Existem razões biológicas e comportamentais para isso.
Do ponto de vista físico, as vias aéreas das crianças são muito mais estreitas do que as dos adultos. Um objeto pequeno que passaria facilmente pela garganta de um adulto pode obstruir completamente a traqueia de uma criança de 2 anos.
Fora que a coordenação entre mastigação e deglutição ainda está sendo desenvolvida nos primeiros anos de vida, o que torna os acidentes muito mais prováveis.
Do ponto de vista comportamental, crianças pequenas exploram o mundo com a boca. É completamente normal que elas peguem objetos e os coloquem na boca , mas isso significa que moedas, tampinhas, grãos, pedaços de brinquedos e alimentos mal cortados estão sempre em risco de serem engolidos errado.
As faixas etárias com maior risco são dos 6 meses aos 4 anos, período em que a criança já tem mobilidade suficiente para pegar objetos, mas ainda não tem maturidade para perceber o perigo. Porém, engasgos podem acontecer em qualquer idade, inclusive em adolescentes e adultos que comem rápido ou falam enquanto mastigam.
Engasgo leve x engasgo grave: como diferenciar
Antes de qualquer ação, é importante entender se o engasgo é leve ou grave. Essa distinção muda completamente o que você deve fazer.
No engasgo leve, a criança consegue tossir, chorar ou falar, mesmo com dificuldade. A tosse é o mecanismo natural do corpo para expulsar o objeto, e ela pode ser muito eficiente.
Nesse caso, a orientação é não intervir mecanicamente: encoraje a criança a continuar tossindo, mantenha a calma e observe. Intervenções desnecessárias podem empurrar o objeto mais fundo.
No engasgo grave, a criança não consegue tossir com força, não faz barulho, fica com a pele roxa ou azulada (especialmente nos lábios e ponta dos dedos), leva as mãos ao pescoço (gesto universal de sufocamento) e pode entrar em pânico ou perder a consciência. Esse é o momento em que você deve agir imediatamente.
Bebês de 0 a 12 meses: 5 tapas nas costas + 5 compressões no peito
Para bebês, a manobra de Heimlich tradicional (compressão abdominal) não deve ser usada, o abdômen dos bebês é muito delicado e pode ser lesionado. A técnica recomendada combina tapas nas costas com compressões no tórax.
Passo a passo:
- Segure o bebê voltado para baixo, com a barriga apoiada no seu antebraço e a cabeça mais baixa que o tronco. Apoie a cabeça com a sua mão, sem cobrir a boca ou o nariz.
- Com a base da outra mão (a região logo abaixo do dedo mínimo), dê 5 tapas firmes nas costas, entre as omoplatas.
- Vire o bebê para cima, ainda apoiado no antebraço, com a cabeça mais baixa que o tronco.
- Com dois dedos (indicador e médio) posicionados no centro do peito, logo abaixo da linha dos mamilos, faça 5 compressões no tórax, empurrando para dentro e para cima.
- Repita a sequência: 5 tapas nas costas, 5 compressões no peito, até que o objeto seja expelido ou o bebê perca a consciência.
Se o bebê perder a consciência, inicie a RCP e chame o SAMU (192) imediatamente.

Crianças de 1 a 8 anos: manobra de Heimlich adaptada
A partir de 1 ano, quando a criança já tem tamanho suficiente e a estrutura abdominal está mais desenvolvida, a manobra de Heimlich pode ser aplicada, mas com adaptações de posicionamento e força de acordo com o tamanho da criança.
Passo a passo:
- Ajoelhe-se ou agache-se atrás da criança para ficar no mesmo nível que ela.
- Abrace-a por trás, colocando os braços ao redor da cintura dela.
- Feche uma mão em punho e posicione o polegar logo acima do umbigo e bem abaixo do esterno (não pressione sobre as costelas).
- Cubra o punho com a outra mão.
- Faça compressões rápidas para dentro e para cima, como se quisesse levantar a criança pelo abdômen. Cada compressão deve ser um movimento distinto e firme.
- Repita até o objeto ser expelido ou a criança perder a consciência.
A força deve ser proporcional ao tamanho da criança. Para crianças menores, use movimentos mais suaves; para crianças maiores, a força pode ser maior.

Crianças maiores, adolescentes e adultos: manobra de Heimlich clássica
A partir de aproximadamente 8 a 10 anos, quando a criança já tem porte semelhante ao de um adulto, a manobra de Heimlich é aplicada da mesma forma que em adultos.
Passo a passo:
- Fique em pé atrás da pessoa.
- Coloque um pé ligeiramente à frente do outro para ter equilíbrio.
- Abrace-a pela cintura, com os dois braços passando sob as axilas dela.
- Feche uma mão em punho e posicione o polegar acima do umbigo e abaixo do esterno.
- Cubra o punho com a outra mão.
- Faça compressões rápidas, firmes e para cima, repetindo até o objeto ser expelido.
Se a pessoa for muito mais alta ou pesada do que você, pode ser difícil posicionar corretamente. Nesse caso, peça para ela se inclinar para frente enquanto você faz as compressões.

E se a criança estiver sozinha ou eu estiver sozinho?
Uma situação que muitos pais não imaginam: e se a criança se engasgar quando estiver sozinha, ou se o adulto se engasgar sem ninguém por perto?
Para crianças maiores que se engasgam sozinhas: oriente-as desde cedo a tentar uma auto manobra: inclinar-se sobre o encosto de uma cadeira com a borda pressionando o abdômen e jogar o peso do corpo para frente com força.
Para adultos sem socorro: a mesma técnica funciona: coloque o abdômen sobre o encosto de uma cadeira firme ou sobre uma bancada, e empurre o corpo para frente com força. Ou forme o próprio punho e faça as compressões abdominais sobre si mesmo.

O que fazer depois que o objeto for expelido
Quando o objeto sai e a criança volta a respirar normalmente, o alívio é imenso — mas o trabalho ainda não terminou.
Mesmo que a criança pareça bem, leve-a ao médico ou pronto-socorro assim que possível. As manobras de desobstrução, especialmente as compressões abdominais em crianças mais novas, podem causar microlesões internas que não são perceptíveis de imediato.
Em alguns casos o objeto pode ter ido parcialmente para as vias aéreas inferiores sem ser completamente expelido. O médico vai avaliar se há necessidade de exames de imagem ou observação por mais tempo.
Prevenção: o melhor remédio
Conhecer as manobras de emergência é essencial, mas evitar que o engasgo aconteça é ainda mais importante.
Algumas medidas simples reduzem muito o risco:
- Na alimentação: corte os alimentos em pedaços pequenos, especialmente uvas, tomates-cereja, salsichas e cenouras cruas. Evite dar à criança abaixo de 4 anos alimentos duros e arredondados inteiros, goma de mascar e amendoim. Ensine as crianças a não correrem, falarem ou rirem com comida na boca.
- Nos brinquedos: fique atento à faixa etária indicada nas embalagens. Objetos com peças menores que 3 cm de diâmetro não são seguros para crianças abaixo de 3 anos. Verifique regularmente se os brinquedos não estão com peças soltas ou quebradas.
- No ambiente: mantenha fora do alcance das crianças moedas, botões, tampinhas, pilhas (especialmente as de botão, que são extremamente perigosas) e qualquer objeto pequeno que possa ser engolido.
- Na rotina: não deixe crianças pequenas comendo sem supervisão de um adulto. Mesmo que a criança já coma sozinha, um adulto por perto pode fazer a diferença em segundos.
Uma palavra final: treine antes da emergência
Ler sobre as manobras é o primeiro passo, mas treinar é o que realmente faz a diferença na hora da emergência. Quando o pânico bate, o corpo vai buscar o que foi praticado, não o que foi lido.
Recomendo que os pais façam um curso de primeiros socorros pediátrico presencial pelo menos uma vez. Muitas instituições oferecem treinamentos práticos com manequins onde você pode treinar a força e o posicionamento corretos. O SAMU e algumas associações de pediatria no Brasil oferecem capacitações periódicas.
E lembre-se: em qualquer situação de emergência em que a criança perca a consciência ou você não consiga desobstruir as vias aéreas, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou leve ao pronto-socorro mais próximo.
Ficou com alguma dúvida? Entre em contato com a clínica, o Dr. Joseph El-Mann e sua equipe estão à disposição para orientar você e sua família.
Dr. Joseph El-Mann — Pediatra com mais de 25 anos de experiência, atendendo na Barra da Tijuca e na Tijuca, Rio de Janeiro. Ex-médico do Corpo de Bombeiros com atuação em emergências e afogamento. Agende uma consulta.