Criança com dor de cabeça frequente: quando é enxaqueca e quando preocupa

Dor de cabeça frequente na infância merece atenção. Entenda como a enxaqueca se manifesta, quais sinais indicam alerta e quando procurar avaliação pediátrica.

“Mãe, tô com dor de cabeça de novo.”

Para alguns pais, essa frase virou rotina. A criança reclama com frequência, às vezes perde o dia de escola, às vezes para tudo que está fazendo e vai deitar. E os pais ficam num território confuso: será que é estresse? Falta de água? Problema de visão? Ou pode ser algo mais sério?

Dor de cabeça em crianças é muito mais comum do que a maioria dos pais imagina e muito mais frequentemente ignorada ou mal diagnosticada do que deveria. A cefaleia é uma das queixas mais frequentes na infância e na adolescência. Mas o fato de ser comum não significa que deva ser normalizada sem avaliação.

Neste artigo, vou explicar os tipos de dor de cabeça mais frequentes na infância, como a enxaqueca se apresenta em crianças — de forma bem diferente dos adultos —, quais são os sinais que pedem avaliação urgente, e o que os pais podem fazer para ajudar o filho que vive com esse problema.

criança com dor de cabeça frequente

Por que crianças têm dor de cabeça?

Antes de falar em diagnóstico, é importante entender que existem dois grandes grupos de cefaleia: as primárias e as secundárias.

As cefaleias primárias — como enxaqueca e cefaleia tensional — são recorrentes e não são causadas por doenças subjacentes. Já as secundárias podem sinalizar condições mais graves.

A maioria das dores de cabeça recorrentes em crianças está relacionada a cefaleias primárias, em que a própria dor é o problema, e não um sintoma de outra doença. No entanto, a avaliação médica é indispensável para diferenciar esses quadros das cefaleias secundárias, especialmente quando as dores se tornam mais frequentes ou apresentam novas características.

Enxaqueca infantil: muito mais frequente do que parece

Quando se fala em enxaqueca, muita gente pensa num adulto de meia-idade deitado no escuro com uma dor latejante do lado direito da cabeça. Essa imagem não corresponde ao que a enxaqueca parece em crianças e é exatamente por isso que ela é tão frequentemente não diagnosticada.

A enxaqueca é uma cefaleia primária que acomete cerca de 10% de crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos de idade. A prevalência global varia de 7,7% a 17%, e tem aumentado nos últimos anos.

Em crianças de 3 a 7 anos, a prevalência da enxaqueca é estimada entre 1% e 3%. Esse índice aumenta com a idade e pode chegar a 23% aos 15 anos, conforme diretrizes da American Academy of Neurology e da American Headache Society.

Na prática, isso significa que, em uma turma de 30 alunos entre 8 e 18 anos, cerca de 3 podem ter enxaqueca, considerando a prevalência combinada de 11% encontrada em uma revisão sistemática de estudos científicos. Muitos casos podem não ser reconhecidos ou diagnosticados.

Traduzindo:numa turma de 30 alunos de 8 a 18 anos, cerca de 3 podem ter enxaqueca. Muitos desses casos podem passar sem diagnóstico.

Como a enxaqueca se apresenta em crianças

A dor costuma ser frontal ou bitemporal nas crianças menores, ou seja, na testa ou nas têmporas dos dois lados, migrando para um padrão unilateral apenas em adolescentes. Isso derruba o mito de que a enxaqueca infantil “não pode ser dos dois lados”.

Outros sinais característicos em crianças:

  • Duração mais curta: em crianças e adolescentes (menores de 18 anos), a crise pode durar de 2 a 72 horas (em adultos, de 4 a 72 horas)

  • Palidez intensa durante a crise: muitas mães descrevem o filho como “ficando branco”

  • Náusea e vômito frequentes, às vezes mais intensos do que a própria dor

  • Fotofobia e fonofobia: o filho que vai para o quarto escuro e pede para abaixar o volume de tudo

  • Melhora com o sono: diferente de outras dores de cabeça, a enxaqueca costuma ceder depois que a criança dorme

  • Irritabilidade antes da crise: muitas crianças ficam de mau humor ou “diferente” antes de a dor começar

A presença de história familiar positiva é um dos fatores mais consistentes associados ao risco. Se você ou o pai/mãe da criança têm enxaqueca, a probabilidade de o filho também ter é significativamente maior.

O que é a aura?

A presença de aura — com sintomas visuais, sensoriais ou de linguagem — pode preceder a dor e ajuda no diagnóstico.

Em crianças, a aura mais comum é a visual: elas descrevem “manchas brilhantes”, “pontos que piscam”, “visão embaçada” ou “ver zig-zags” por alguns minutos antes de a dor começar. Isso pode assustar muito — tanto a criança quanto os pais — mas é parte do quadro da enxaqueca com aura, não um sinal de algo neurológico grave isoladamente.

Quando seu filho descrever algo assim pela primeira vez, anote e relate ao pediatra com detalhes.

Cefaleia tensional: comum e muitas vezes subestimada

Ao lado da enxaqueca, a cefaleia tensional é o tipo mais frequente em crianças em idade escolar.

A cefaleia tensional é mais leve, bilateral e tem caráter de pressão — como uma faixa ao redor da cabeça — sem agravamento com atividade física. Diferente da enxaqueca, a criança geralmente consegue continuar com suas atividades, ainda que desconfortável.

Fatores frequentemente associados em crianças incluem:

  • Postura inadequada: horas curvada sobre tablet, celular ou caderno escolar

  • Privação de sono: especialmente em crianças que dormem mal de forma crônica. Vale lembrar que o sono ruim pode ter várias causas, entre elas o ronco e a apneia infantil assunto que merece avaliação separada

  • Desidratação: especialmente no calor do Rio de Janeiro

  • Tensão emocional e ansiedade: provas, conflitos na escola, problemas familiares

  • Uso excessivo de telas: a fadiga visual pode contribuir para a cefaleia em crianças

A cefaleia tensional episódica responde bem a medidas simples: hidratação, alongamento, correção postural e, quando necessário, analgésico pontual. Quando se torna frequente (15 ou mais dias por mês, por mais de 3 meses), passa a ser chamada de cefaleia tensional crônica e merece investigação mais cuidadosa.

Os sinais de alerta: quando procurar avaliação

A maioria das cefaleias em crianças é primária e benigna. Mas existe um conjunto de sinais que muda completamente o cenário, os chamados “red flags” (bandeiras vermelhas) da cefaleia pediátrica.

Um sinal de alerta não significa necessariamente doença grave, mas pede avaliação. Alguns exigem atendimento imediato; outros, avaliação prioritária com o pediatra, no mesmo dia ou em poucos dias. Em cada item abaixo, indicamos o nível: [Imediato] ou [Prioritário].

  • [Imediato] Início súbito e muito intenso: a “pior dor de cabeça da vida”, que apareceu “do nada” em questão de segundos ou poucos minutos. Esse padrão pode indicar sangramento intracraniano e é uma emergência.

  • [Prioritário] Dor que acorda a criança do sono: Cefaleias primárias raramente tiram a criança do sono. Quando isso acontece — especialmente de madrugada — é sinal de alerta para causas secundárias, incluindo hipertensão intracraniana.

  • [Prioritário] Dor progressiva, que piora ao longo de dias ou semanas: diferente da enxaqueca, que vai e vem com padrão relativamente estável, uma dor que fica progressivamente pior ao longo de semanas merece investigação com neuroimagem.

  • [Prioritário: no mesmo dia] Dor associada a vômitos em jato: vômito em jato (projetado, sem náusea prévia) junto com cefaleia é clássico de hipertensão intracraniana — pressão aumentada dentro do crânio — e precisa de avaliação urgente.

  • [Imediato] Dor acompanhada de febre e rigidez de nuca: sinais juntos levantam suspeita de meningite (os sinais clássicos incluem febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental, como sonolência excessiva ou confusão). Se o filho está com dor de cabeça intensa, febre e dificuldade para encostar o queixo no peito, é emergência. Leia mais sobre como reconhecer a febre sem foco em bebês e os sinais que pedem atenção imediata.

  • [Imediato] Dor com alteração de comportamento, visão ou equilíbrio: Qualquer cefaleia acompanhada de visão dupla, dificuldade para andar, fraqueza em braço ou perna, confusão mental ou alteração da fala é sinal de alerta neurológico grave.

  • [Prioritário] Dor sempre no mesmo lado, toda vez: A enxaqueca pode ser unilateral, mas costuma alternar os lados ao longo do tempo. Cefaleia que é sempre, sem exceção, do mesmo lado merece investigação para descartar lesão estrutural.

  • [Prioritário] Dor em crianças com menos de 3 anos: Cefaleias recorrentes em crianças muito pequenas são incomuns e merecem investigação mais cuidadosa do que nas crianças maiores.

  • [Prioritário] Dor de cabeça após trauma na cabeça: procure avaliação médica. Se houver vômitos repetidos, sonolência, confusão ou perda de consciência, o atendimento deve ser imediato.

  • [Prioritário] Dor que piora ao tossir, ao fazer esforço ou ao mudar de posição, ou que aparece ao acordar com vômitos: pode indicar aumento da pressão dentro do crânio e deve ser avaliada.

Regra prática: qualquer dor de cabeça que foge do padrão habitual da criança — mais intensa, com característica nova, ou acompanhada de qualquer outro sintoma neurológico — merece contato com o pediatra o quanto antes. Nos sinais marcados como [Imediato], procure um serviço de emergência.

O diário de cefaleia: uma ferramenta simples e útil

Se seu filho tem dores de cabeça frequentes, existe uma coisa simples que você pode fazer que vai transformar a consulta com o pediatra: manter um diário de cefaleia.

Durante 3 a 4 semanas, anote cada episódio com:

  • Data e hora de início e fim

  • Intensidade (numa escala de 1 a 10, ou para crianças pequenas, usando carinhas)

  • Localização da dor (testa, têmporas, nuca, atrás dos olhos)

  • Caráter (latejante, em pressão, em pontada)

  • Sintomas associados (náusea, vômito, palidez, sensibilidade à luz ou ao som)

  • O que a criança fez antes da dor (o que comeu, dormiu bem, estava nervosa, fez exercício)

  • O que melhorou a dor (deitar, sono, analgésico, frio, escuro)

Esse registro transforma a consulta. Em vez de depender da memória da criança — que costuma ser imprecisa sobre dores passadas —, o pediatra tem dados concretos para identificar padrão, frequência, gatilhos e orientar o tratamento.

O que o pediatra avalia e quando encaminhar ao neurologista

O diagnóstico da cefaleia em crianças é essencialmente clínico, feito pela história detalhada e pelo exame físico. Como não existe exame que confirme a enxaqueca, a qualidade da história faz muita diferença.

Na consulta, o pediatra vai:

  • Caracterizar detalhadamente a dor (frequência, duração, localização, intensidade)

  • Investigar fatores desencadeantes e de alívio

  • Avaliar o impacto na rotina escolar e social da criança

  • Realizar exame neurológico completo

  • Identificar se há sinais de alerta que indiquem necessidade de exames de imagem

Nos casos em que o pediatra faz a suspeita do diagnóstico de enxaqueca, a criança pode ser avaliada por um neurologista pediátrico, pois pode ser necessário seguimento especializado e possivelmente com medicação apropriada.

A tomografia ou a ressonância magnética não são necessárias na maioria dos casos de cefaleia primária em crianças. A neuroimagem não é indicada de rotina quando a criança apresenta uma cefaleia estável, compatível com enxaqueca, e não há alterações neurológicas ou outros sinais de alerta.

O exame pode ser considerado quando há alterações no exame neurológico, início recente de uma dor intensa, mudança no padrão da cefaleia ou outros sinais que possam indicar uma causa secundária. American Academy of Pediatrics (AAP)

criança com dor de cabeça frequente

Tratamento: o que realmente funciona

Na crise aguda

Para a maioria das cefaleias em crianças, o tratamento da crise inclui:

  • Repouso em ambiente tranquilo, com pouca luz e pouco barulho

  • Hidratação: muitas crises melhoram apenas com água

  • Analgésicos em dose correta para o peso: paracetamol ou ibuprofeno (este último a partir de 6 meses) são as primeiras escolhas. Aspirina deve ser evitada em crianças e adolescentes pela associação com a Síndrome de Reye

  • Sono: especialmente na enxaqueca, dormir frequentemente interrompe a crise

Prevenção e redução da frequência

Quando as crises são frequentes (por exemplo, mais de 2 por semana) ou muito incapacitantes, o pediatra ou neurologista pode indicar medicação preventiva. Mas antes de medicamentos, medidas comportamentais fazem uma diferença real

  • Regularidade no sono: dormir e acordar nos mesmos horários todos os dias, inclusive fins de semana

  • Hidratação adequada: muitas crianças bebem menos água do que precisam, especialmente no calor do Rio

  • Alimentação regular: pular refeições é um gatilho clássico de enxaqueca

  • Redução do tempo de tela: especialmente antes de dormir

  • Atividade física regular: costuma ser indicada como parte do manejo da enxaqueca em crianças

  • Manejo da ansiedade: quando o componente emocional é importante, psicoterapia infantil pode ser parte do tratamento

O impacto invisível: cefaleia e desempenho escolar

Este é um aspecto que raramente é discutido com os pais e que tem impacto real na vida da criança. A enxaqueca é altamente prevalente em pediatria e pode impactar a qualidade de vida além do rendimento escolar.

Uma criança que tem 2 a 3 episódios de enxaqueca por semana perde dias inteiros de escola, fica para trás no conteúdo, não consegue se concentrar nos dias em que está bem porque está esperando a próxima crise, e frequentemente começa a desenvolver ansiedade antecipatória.

Professores e coordenadores escolares podem não reconhecer o padrão: a criança “falta muito”, “é fraca para aprender” ou “é mimada O diagnóstico correto e o acompanhamento adequado podem melhorar a qualidade de vida e o desempenho.

Se você percebe que as dores de cabeça do seu filho estão afetando a frequência ou o desempenho escolar, leve esse dado especificamente para a consulta: é uma informação clínica importante que vai orientar a urgência e a intensidade do tratamento.

Quando consultar o Dr. Joseph El-Mann

Leve seu filho ao pediatra para avaliação de cefaleia quando:

  • As dores de cabeça acontecem mais de 1 a 2 vezes por semana

  • A criança falta à escola ou para atividades por causa da dor

  • Os episódios estão ficando mais frequentes ou mais intensos ao longo do tempo

  • A dor vem acompanhada de náusea, vômito ou sensibilidade à luz e ao som

  • A criança descreve sintomas visuais antes da dor

  • Qualquer sinal de alerta descrito neste artigo estiver presente

  • Você já está dando analgésico mais de 2 vezes por semana, o uso excessivo de analgésico pode, paradoxalmente, piorar a cefaleia (cefaleia por uso excessivo de medicamento)

Antes da consulta, comece o diário de cefaleia e leve-o com você, mesmo que com apenas 2 semanas de registro. Essa informação ajuda a qualificar a avaliação. Agende a consulta com dr. Joseph El-Mann

Em resumo

Criança com dor de cabeça frequente não está “inventando” e não deveria ser mandada de volta para a escola com um analgésico e um “passa logo”. A cefaleia recorrente na infância tem diagnóstico, tem tratamento e tem impacto real na qualidade de vida o acompanhamento adequado ajuda a reduzir o impacto no dia a dia.

A enxaqueca infantil é comum, muitas vezes subdiagnosticada e tem opções de manejo. E os sinais de alerta que indicam algo mais sério são reconhecíveis para qualquer pai que saiba o que observar.

Ficou com dúvidas sobre as dores de cabeça do seu filho? Entre em contato com a nossa equipe, estamos aqui para orientar você com base em evidências e sem julgamentos.

Dr. Joseph El-Mann é pediatra com mais de 25 anos de experiência, atendendo na Barra da Tijuca e na Tijuca, Rio de Janeiro Atua no acompanhamento pediátrico do nascimento à adolescência.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Revisão médica: Dr. Joseph El-Mann

Fontes: Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) · American Academy of Pediatrics (AAP 2025) · International Classification of Headache Disorders, 3ª edição (ICHD-3) · Cephalalgia 2026

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